MOSTRA LUCIA CAMARGO – A Máquina volta ao Festival de Curitiba na Ópera de Arame

A Máquina no Festival de Curitiba tem gosto de reencontro histórico. Vinte e cinco anos depois de marcar uma geração e revelar ao país um elenco que se tornaria referência nas artes cênicas e no audiovisual brasileiro, o texto de João Falcão retorna ao evento em uma nova montagem da Mostra Lucia Camargo, com sessões nos dias 4 e 5 de abril, às 19h e 21h30, na Ópera de Arame.

Foto: Flora Negri
Foto: Flora Negri

Baseado no romance homônimo de Adriana Falcão, o espetáculo ocupa um lugar especial na memória do teatro nacional. Na primeira passagem pelo Festival de Curitiba, em 2000, o público conheceu a história de Antônio e Karina em uma encenação que unia lirismo, humor, brasilidade e invenção cênica. No palco, estavam então nomes ainda pouco conhecidos do grande público, como Wagner Moura, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta e Gustavo Falcão, em um momento que hoje soa quase mítico para a cena brasileira.

Um clássico brasileiro que segue atual

A força de A Máquina no Festival de Curitiba está justamente em sua capacidade de atravessar o tempo sem perder frescor. A trama acompanha Antônio, apaixonado por Karina, disposto a construir uma engenhoca para impedir que ela deixe a pequena Nordestina, cidade onde vivem, em busca do mundo lá fora. O que poderia soar como uma simples história de amor ganha dimensão poética e popular, misturando imaginação, desejo, deslocamento e identidade brasileira.

João Falcão relembra a importância daquela estreia curitibana com emoção: “Eu tenho as melhores lembranças possíveis daquele Festival de Curitiba. A gente tinha noção de que era um bom trabalho, o melhor que a gente podia fazer”. Em seguida, completa: “Foi em Curitiba que a coisa realmente aconteceu nacionalmente e ficou claro para a gente que aquele trabalho ia ter uma repercussão especial, além do trivial. As pessoas ficaram depois da sessão, do espetáculo. Foi uma catarse”.

Nova geração assume o palco

Para esta remontagem, João Falcão e o produtor Clayton Marques decidiram não repetir a fórmula original. Em vez de reunir o elenco da estreia, a nova versão aposta em um novo olhar e em novos corpos em cena, com os atores do coletivo Ocutá — Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Brito — assumindo a pulsação do espetáculo. Ao lado deles, Agnes Brichta dá vida a Karina, estabelecendo uma ponte simbólica com a montagem histórica: ela é filha de Vladimir Brichta, um dos intérpretes da primeira versão.

A presença de Agnes reforça o diálogo entre passado e presente, tradição e reinvenção. Mais do que uma coincidência afetiva, sua escalação ajuda a reafirmar a permanência de A Máquina como obra viva, capaz de se renovar sem romper com a memória que construiu.

A Máquina no Festival de Curitiba celebra o diferente

A nova montagem chega ao festival cercada por um discurso que amplia ainda mais a relevância do texto. Para Agnes Brichta, a obra toca diretamente aquilo que a sociedade costuma empurrar para as margens: “Para mim, ‘A Máquina’ celebra o plural, celebra o diferente, o esquisito, o marginalizado, o que está à margem. Fala também do que tem valor e do que não tem valor, do que precisa ser escutado e do que muitas vezes é ignorado. Essas são coisas que aprisionam a gente e silenciam muitas experiências relevantes, interessantes e bonitas”.

Já Bruno Rocha destaca a permanência simbólica do texto no Brasil contemporâneo. Segundo ele, a peça continua funcionando como “um espelho delicado de um Brasil que sonha em se mover”, porque parte de uma cidade pequena para falar de algo muito maior: o desejo humano de atravessar distâncias geográficas, afetivas e imaginárias.

Lirismo, música e brasilidade em cena

Se a montagem original ficou marcada pela mise-en-scène inventiva e pela trilha de DJ Dolores, a nova versão preserva esse espírito de encantamento e mantém viva a essência de um espetáculo que ajudou a se consolidar como clássico do teatro brasileiro. A ficha técnica confirma João Falcão na adaptação e direção, Gustavo Falcão na codireção e DJ Dolores na música original, em uma combinação que reforça o elo entre memória e atualização.

Em um festival que sempre valorizou obras capazes de dialogar com o presente sem abrir mão da força estética, A Máquina no Festival de Curitiba reaparece como uma das montagens mais simbólicas desta edição. Não apenas por revisitar um marco da história recente do evento, mas por provar que certas histórias continuam necessárias quando falam de amor, pertencimento, sonho e movimento.

Serviço

A Máquina – Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Data: 4 e 5 de abril de 2026
Horários: 19h e 21h30
Local: Ópera de Arame
Categoria: Comédia
Classificação: Livre
Duração: 70 minutos

Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller.

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