O BRACE Festival de Curitiba chega à 34ª edição do evento como uma das estreias internacionais mais relevantes da Mostra Lucia Camargo. Criado pelo coreógrafo e bailarino moçambicano Edivaldo Ernesto, o espetáculo faz sua estreia nacional nos dias 5 e 6 de abril, no Sesc da Esquina, e propõe uma imersão intensa em temas como memória, resistência e herança ancestral, a partir da história de povos que habitaram o Sul da África entre os séculos XV e XIX.

Mais do que uma apresentação de dança, BRACE Festival de Curitiba se anuncia como uma experiência cênica de alto impacto poético e político. A obra nasce inspirada nas trajetórias dos povos Mwene Mutapa, Zulos e Changana, sociedades que ocuparam territórios dos atuais Zimbabwe, Moçambique e África do Sul e desenvolveram sistemas políticos, culturais e econômicos complexos, marcados também por episódios de resistência às opressões colonialistas.
Edivaldo Ernesto transforma história em movimento
Em BRACE Festival de Curitiba, Edivaldo Ernesto não recorre à história como ilustração, mas como matéria viva de criação. Nascido em Maputo e radicado na Alemanha, o artista constrói uma narrativa corporal que atravessa a sua própria ancestralidade e questiona a maneira como o olhar ocidental ainda costuma enquadrar corpos e culturas africanas em uma lógica de carência permanente.
Segundo o próprio criador, o processo partiu da necessidade de reposicionar essas existências no centro da cena, em sua soberania e potência. A proposta, portanto, não é apenas recordar o passado, mas afirmar a complexidade histórica desses povos e devolver densidade simbólica a corpos que tantas vezes foram reduzidos a estereótipos. Em cena, essa herança aparece de forma sensível: um personagem que carrega a força da memória coletiva, mas também a vulnerabilidade de quem permanece profundamente humano.
BRACE Festival de Curitiba conecta África e Brasil pelo corpo
A vinda de Edivaldo Ernesto ao Brasil adiciona outra camada de interesse ao espetáculo. Pela primeira vez apresentado no país, BRACE Festival de Curitiba também se constrói como ponte entre territórios historicamente ligados pela diáspora africana. O artista afirma enxergar na cultura brasileira ecos profundos dessa herança, percebendo no Brasil uma energia que dialoga com expressões do seu país natal e que alimenta diretamente seu impulso criativo.
Esse elo torna a apresentação especialmente significativa em Curitiba. O público brasileiro é convocado não apenas a assistir a uma obra internacional, mas a reconhecer no movimento, no ritmo e na presença do corpo marcas de uma memória compartilhada. Há, nesse gesto, uma dimensão de reencontro que reforça a potência do espetáculo e amplia sua ressonância para além do palco.
Corpo, som e espaço como uma mesma orquestra
Um dos aspectos mais fascinantes de BRACE Festival de Curitiba está na maneira como Edivaldo Ernesto articula corpo, som e espaço. O artista define esses elementos como uma grande orquestra, em que o corpo funciona como instrumento principal e os sons por ele produzidos se tornam matéria dramatúrgica em composição com a música. A dança, assim, não é apenas visual: ela vibra como arquitetura sonora, pulsação e presença.
Essa abordagem dialoga com a trajetória internacional do coreógrafo, que começou nas danças tradicionais e se aprofundou em técnicas como Flying Low e Passing Through, desenvolvidas pelo venezuelano David Zambrano, com quem atua desde 2010 como assistente e intérprete. Além disso, Ernesto desenvolveu metodologias próprias de improvisação e composição de movimento, ensinadas há mais de uma década em diversos países e universidades. Essa bagagem aparece em cena como rigor técnico, liberdade expressiva e uma compreensão refinada do corpo como linguagem total.
Uma das atrações internacionais mais potentes do festival
Dentro da programação do festival, BRACE Festival de Curitiba se destaca por reunir qualidades raras em uma mesma obra: densidade histórica, elaboração estética e força performática. É um espetáculo que trabalha com a memória sem se tornar ilustrativo, que fala de resistência sem perder sofisticação formal e que transforma o corpo em arquivo, território e afirmação.
Em um tempo em que a dança contemporânea frequentemente busca novas formas de narrar o mundo, Edivaldo Ernesto oferece uma criação que escapa do lugar comum. Sua arte não se organiza apenas em torno do virtuosismo técnico, mas da urgência de fazer o movimento dizer algo essencial sobre origem, permanência e dignidade. Por isso, a estreia de BRACE Festival de Curitiba tem potencial para se firmar como um dos momentos mais marcantes da Mostra Lucia Camargo.
Serviço
BRACE – Mostra Lucia Camargo
Estreia nacional
Datas: 5 de abril, às 19h, e 6 de abril, às 20h30
Local: Sesc da Esquina – Rua Visconde do Rio Branco, 969 – Mercês
Classificação: Livre
Categoria: Dança
Duração: 55 minutos
34º Festival de Curitiba
Data: de 30 de março a 12 de abril de 2026
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3.


