MOSTRA LUCIA CAMARGO – Dias Felizes estreia no Festival de Curitiba com Beckett

A Armazém Companhia de Teatro retorna ao Festival de Curitiba com Dias Felizes, um dos textos mais cortantes e luminosamente cruéis de Samuel Beckett. As apresentações acontecem nos dias 3 e 4 de abril, às 20h30, no Guairinha, dentro da Mostra Lucia Camargo, levando ao público uma montagem que investiga a delicada fronteira entre resistência e colapso, entre a disciplina da rotina e a vertigem do vazio.

Foto: Joao Gabriel Monteiro
Foto: Joao Gabriel Monteiro

Em vez de tratar Beckett como monumento intocável, a companhia escolhe relê-lo a partir de um nervo muito contemporâneo. O espetáculo observa como seguimos nos agarrando a ritos mínimos, memórias fragmentadas e objetos banais para sustentar a passagem do tempo, mesmo quando tudo ao redor parece caminhar para a exaustão. Nesse gesto, Dias Felizes no Festival de Curitiba se afirma não apenas como remontagem de um clássico do século 20, mas como comentário agudo sobre o presente.

Winnie entre o otimismo e a ruína

Sob direção de Paulo de Moraes, a montagem ressignifica a jornada de Winnie, interpretada por Patrícia Selonk, figura central dessa paisagem moral e emocional devastada. Enterrada primeiro até a cintura e depois até o pescoço, Winnie tenta manter algum senso de ordem por meio de pequenos rituais diários, como se a repetição ainda pudesse conter a falência do mundo. Entre o sino estridente que regula seu dia e o sol impiedoso que dissolve qualquer noção estável de tempo, ela se agarra ao conteúdo de sua bolsa — escova de dentes, batom, espelho e um revólver — como quem preserva as últimas peças de uma identidade ameaçada.

A beleza da construção está justamente no modo como a peça recusa soluções fáceis. Winnie não é apenas símbolo de resignação, nem apenas emblema de heroísmo. Ela existe nessa franja incômoda entre lucidez e autoengano, esperança e delírio. E é nesse espaço, tão humano quanto doloroso, que Beckett faz surgir sua ironia mais feroz. Na leitura da Armazém, essa tensão ganha corpo com nitidez e precisão.

Willie e a companhia possível da solidão

Ao lado de Winnie está Willie, personagem interpretado em dias alternados por Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes. Na encenação, ele não surge apenas como presença passiva ou resto de convivência, mas como uma figura ambígua, às vezes cúmplice silenciosa, às vezes lembrete incômodo de que até a solidão pode ter companhia. Essa escolha amplia o jogo cênico e evita reduzir a relação entre os dois a uma chave única de leitura.

Essa dimensão relacional é importante porque faz o espetáculo escapar da abstração pura. Mesmo em um universo rarefeito, árido e quase pós-humano, Beckett continua falando de vínculo, dependência, hábito e desgaste. A companhia entre Winnie e Willie não oferece salvação, mas tampouco desaparece. Ela persiste como ruído, sombra, resto. E isso basta para intensificar a estranheza do conjunto.

Beckett, crise climática e esgotamento contemporâneo

A montagem também encontra uma chave atual ao aproximar a paisagem desolada da peça de inquietações ecológicas do nosso tempo. Se, em outras leituras, o cenário de Dias Felizes poderia remeter ao trauma nuclear do pós-guerra, aqui ele ressoa também como imagem de um planeta exaurido, ressecado, à beira do colapso. A crise do indivíduo se funde à crise da espécie, e a sensação de esgotamento deixa de ser apenas existencial para ganhar contornos ambientais e civilizatórios.

Essa atualização não aparece como enxerto externo, mas como consequência natural da própria matéria dramatúrgica. Beckett continua perturbador porque fala de uma permanência humana diante do insuportável. No presente, esse insuportável inclui também a deterioração do mundo material, a sensação de que seguimos operando normalmente enquanto algo essencial já se rompeu.

A Armazém Companhia de Teatro e a precisão do absurdo

Com trajetória consolidada entre as mais importantes do teatro brasileiro, a Armazém Companhia de Teatro se aproxima de Beckett sem ornamentação excessiva. O que interessa aqui é o mecanismo impiedoso do tempo, o humor ácido das repetições e a maneira como o discurso de Winnie insiste em seguir adiante mesmo quando a realidade ao redor desautoriza qualquer expectativa de estabilidade. Nesse ponto, a montagem parece compreender algo essencial do autor: a comicidade de Beckett nunca suaviza a tragédia; ela a expõe ainda mais.

Paulo de Moraes, premiado em 2024 pelo trabalho em Brás Cubas, conduz a encenação apostando nesse equilíbrio raro entre rigor formal e impacto sensível. Em cena, cada palavra soa como se viesse de um lugar ao mesmo tempo íntimo e terminal. Entre o riso e a ruína, como propõe o material da produção, a peça constrói um jogo cruel e fascinante, em que a esperança já não é certeza de nada, mas continua sendo pronunciada.

Um clássico que insiste em nos olhar

Há espetáculos que sobrevivem por prestígio histórico. Outros permanecem porque seguem nos dizendo algo incontornável. Dias Felizes no Festival de Curitiba pertence claramente ao segundo grupo. A peça resiste porque insiste em uma pergunta que nenhuma época consegue responder de forma definitiva: o que sustenta a vida quando as estruturas de sentido começam a falhar?

Ao trazer essa questão de volta ao palco, a Armazém não oferece conforto. Oferece uma experiência de confronto. E talvez seja exatamente isso que faz desta montagem uma das presenças mais fortes da Mostra Lucia Camargo: ela devolve Beckett ao lugar que sempre foi seu, o de autor capaz de transformar o absurdo em espelho.

Serviço

Dias Felizes – Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Data: 3 e 4 de abril, às 20h30
Local: Guairinha — Rua XV de Novembro, 971
Classificação: 14 anos
Gênero: Drama
Duração: 75 minutos
Acessibilidade: audiodescrição.

34º Festival de Curitiba
Data: de 30 de março a 12 de abril de 2026
Ingressos: Festival de Curitiba — www.festivaldecuritiba.com.br
Bilheteria física: Shopping Mueller, Piso L3, de segunda a sábado, das 10h às 22h, e domingos e feriados, das 14h às 20h.

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