MOSTRA LUCIA CAMARGO – Dois Papas estreia no Festival de Curitiba com montagem brasileira

Em uma edição do Festival de Curitiba marcada por montagens de forte densidade política e humana, Dois Papas no Festival de Curitiba surge como uma das estreias mais relevantes da Mostra Lucia Camargo. O espetáculo será apresentado nos dias 6 e 7 de abril, às 20h30, no Guairão, e leva ao palco brasileiro a primeira montagem internacional do texto teatral de Anthony McCarten, autor também do livro homônimo e do roteiro do filme dirigido por Fernando Meirelles para a Netflix.

Foto: Castelo Gandolpho / Zug Produções
Foto: Castelo Gandolpho / Zug Produções

A peça parte de um encontro imaginado entre dois líderes da Igreja Católica com visões de mundo antagônicas: o conservador Papa Bento XVI, interpretado por Zécarlos Machado, e o então cardeal Jorge Bergoglio, futuro Papa Francisco, vivido por Celso Frateschi. O que poderia se resumir a um embate doutrinário se expande, na dramaturgia, para uma reflexão mais ampla sobre tradição, mudança, autoridade e a difícil arte de escutar quem pensa diferente.

Um drama sobre religião que fala, sobretudo, do presente

O ponto de partida da trama é simples e dramaticamente eficaz. Bergoglio viaja a Roma decidido a pedir aposentadoria, mas acaba sendo convocado por Bento XVI para uma conversa pessoal. A partir daí, o espetáculo constrói um diálogo em que tensão, humor, respeito e confronto convivem no mesmo espaço, expondo não apenas divergências teológicas, mas também dois modos de compreender o mundo e o papel da liderança.

Esse é um dos grandes méritos da montagem: embora parta do universo religioso, Dois Papas no Festival de Curitiba não se limita a ele. O próprio Celso Frateschi sublinha esse alcance ao afirmar que a peça extrapola a esfera da fé e se impõe como reflexão sobre os impasses do nosso tempo. Segundo o ator, são “duas visões de mundo antagônicas” que iluminam a polarização contemporânea, em uma dramaturgia ao mesmo tempo filosófica e acessível.

Munir Kanaan aposta na escuta como força dramática

Com direção de Munir Kanaan, o espetáculo se organiza menos como duelo espetaculoso e mais como uma arena de complexidades. O diretor observa que, apesar de ser visto como figura mais aberta, é Bergoglio quem chega hesitante ao encontro, enquanto Bento XVI, associado ao conservadorismo, é quem propõe o diálogo. A inversão é decisiva para a encenação, porque desmonta leituras simplistas e sustenta a peça numa zona de ambiguidade rara: ninguém ali é apenas tese; ambos são homens, instituições e contradições ao mesmo tempo.

Ao enfatizar a possibilidade de escuta mútua diante das diferenças, Kanaan reposiciona o texto de McCarten para um presente saturado por certezas absolutas. Não por acaso, Zécarlos Machado destaca a atualidade da obra em termos diretos: vivemos, segundo ele, um tempo em que “cada um tem sua própria verdade” e muitas vezes a afirma de maneira agressiva. A peça, nesse sentido, não oferece uma conciliação ingênua, mas propõe a reconciliação como exercício de reconhecimento do humano no outro.

Dois Papas no Festival de Curitiba reúne dois veteranos em alta voltagem cênica

Há ainda um peso simbólico importante na escolha do elenco. Celso Frateschi e Zécarlos Machado voltam a dividir o palco após “Santa Joana”, de Bernard Shaw, nos anos 1980, o que confere à montagem uma camada adicional de maturidade e presença. A relação entre os dois atores parece favorecer justamente o coração do espetáculo: a construção de um embate que não depende de caricaturas, mas de nuances, pausas, escuta e inteligência interpretativa.

Ao lado deles, Carol Godoy e Eliana Guttman assumem papéis fundamentais na tessitura dramática. São elas que interpretam Irmã Sofia e Irmã Brigitta, personagens próximas aos protagonistas e decisivas para ampliar a dimensão íntima da narrativa. Em vez de funcionarem como meros apoios, suas presenças ajudam a revelar os contornos humanos por trás das figuras públicas, contribuindo para que a peça não se transforme em simples debate de ideias, mas em teatro de relações.

Aparato visual reforça o conflito entre sacralidade e intimidade

A encenação também aposta em um desenho visual sofisticado. O cenário branco, concebido como instalação cênica, vai se transformando por meio de figurinos, objetos e projeções, criando desde ambientes sacros até zonas de maior intimidade psicológica. O videomapping amplia a densidade imagética do espetáculo e ajuda a inserir materiais documentais sem quebrar a fluidez da cena, enquanto a trilha sonora conduz as passagens com discrição e precisão.

Esse aparato não parece buscar excesso ornamental, mas uma espécie de limpeza simbólica que torne ainda mais visíveis as forças em disputa. Em um espetáculo centrado na palavra e no pensamento, a visualidade funciona como contraponto sensível, intensificando o confronto entre tradição e transformação que atravessa a obra.

Uma montagem premiada antes mesmo de chegar a Curitiba

A trajetória recente de Dois Papas no Festival de Curitiba reforça a expectativa em torno da montagem. Estreada mundialmente em junho de 2019, no Royal & Derngate Theatre, na Inglaterra, a peça chega ao Brasil cercada por reconhecimento. Após temporada de estreia no Sesc-SP, com sessões esgotadas e forte repercussão crítica, o espetáculo foi convidado para inaugurar a Sala Nobre do Teatro Cultura Artística, em São Paulo, marcando a retomada das apresentações no espaço.

Em 2025, a montagem venceu o Prêmio Arcanjo de Cultura como Melhor Drama do Ano, e seus dois protagonistas foram indicados ao Prêmio APCA na categoria de Melhor Ator. Esses resultados ajudam a consolidar o espetáculo como uma das produções teatrais mais importantes da temporada e aumentam o peso de sua passagem por Curitiba.

Serviço

Dois Papas – Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Local: Teatro Guaíra (Guairão) — Rua Conselheiro Laurindo, 175, Centro
Data: 6 e 7 de abril de 2026
Horário: 20h30
Categoria: Drama
Classificação: Livre
Duração: 135 minutos, com 15 minutos de intervalo.

34º Festival de Curitiba
Data: de 30 de março a 12 de abril de 2026
Valores: ingressos de R$ 0 a R$ 85, mais taxas administrativas
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller, Piso L3.

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