Jonathan no Festival de Curitiba: crítica da peça

Quando saí de Jonathan no Festival de Curitiba, tive a sensação rara de ter assistido a uma peça que não apenas conta uma história, mas reorganiza o meu modo de olhar para ela. Há espetáculos que impressionam pelo tema. Outros, pela forma. Jonathan me atravessou porque consegue sustentar os dois com uma precisão incomum. É uma obra que pensa profundamente, mas não perde calor humano. É política, mas nunca vira palestra. É poética, mas não se esconde atrás de abstrações vazias. E talvez seja justamente por isso que ela me conquistou tanto.

Foto: Lina Sumizono
Foto: Lina Sumizono

O que mais me chamou atenção desde o início foi a inteligência com que a peça transforma um enredo aparentemente simples em uma reflexão ampla sobre poder, memória, ocupação e herança histórica. A premissa do jovem Jonathan, que herda a missão de cuidar da tartaruga Jonathan, já seria forte por si só. Mas a peça vai muito além do simbolismo fácil. O que vejo em cena é uma construção dramatúrgica muito mais sofisticada, em que o nome compartilhado entre o personagem e a tartaruga deixa de ser apenas uma coincidência e passa a funcionar como espelho, continuidade e tensão.

Essa escolha dramatúrgica é brilhante porque cria uma ponte entre dois tempos. De um lado, a tartaruga, figura de duração extrema, de permanência, de sobrevivência. Do outro, o jovem, atravessado pela urgência do presente, pela formação de identidade, pela necessidade de entender o lugar que ocupa num mundo moldado por estruturas que vieram antes dele. Para mim, a peça encontra aí um dos seus gestos mais bonitos: ela encena o encontro entre o que sobreviveu ao tempo e o que ainda está tentando nascer dentro dele.

Um anticolonialismo que não vira discurso engessado

O que mais me seduziu em Jonathan no Festival de Curitiba foi a forma como a crítica ao pensamento colonial aparece entranhada na peça, e não colocada sobre ela como um comentário externo. Em muitos espetáculos, a denúncia vem pronta, organizada, correta, mas previsível. Aqui, não. Aqui eu senti que o colonialismo não era um assunto decorado; era uma atmosfera, uma estrutura, uma lógica operando por trás dos corpos, das imagens, dos símbolos e das relações.

A peça me pareceu anticolonial justamente porque compreende que o colonialismo não vive apenas nos livros de história nem nas grandes invasões que aprendemos a nomear. Ele segue se reproduzindo nas formas de narrar, de ocupar, de classificar, de decidir quem merece existir plenamente e quem deve se adaptar a uma ordem já imposta. Jonathan percebe isso com nitidez e escolhe responder não com rigidez teórica, mas com imaginação cênica.

É esse ponto que considero um dos maiores méritos do espetáculo. A peça denuncia, sim, mas não abre mão da invenção. Ela critica, sim, mas não abandona o encantamento. E essa combinação me parece muito poderosa, porque desloca a crítica do lugar do óbvio e a leva para um campo mais sensível, mais artístico e, por isso mesmo, mais incisivo.

A tartaruga Jonathan como arquivo vivo da violência e da permanência

A tartaruga Jonathan é, para mim, uma das imagens mais fortes que vi no teatro recentemente. Não apenas porque carrega um peso histórico evidente, mas porque a peça consegue fazê-la significar muitas coisas ao mesmo tempo sem perder clareza.

Ela é memória. Ela é testemunha. Ela é permanência. Ela é um corpo que atravessou camadas de tempo e, por isso, virou quase um arquivo vivo da ilha, do poder, das marcas deixadas pela colonização e das narrativas que se acumulam sobre aquele território. Ao mesmo tempo, ela não aparece apenas como relíquia do passado. A tartaruga também me pareceu funcionar como uma espécie de medida silenciosa da brutalidade humana: enquanto ela permanece, os sistemas de poder ao redor tentam ordenar o mundo, controlar a terra, disciplinar vidas e definir futuros.

O efeito disso na peça é devastador. Porque, quando o jovem Jonathan é colocado em relação com essa tartaruga, eu não vejo apenas um menino cuidando de um animal. Vejo um jovem sendo chamado a lidar com um legado que não é só familiar, mas histórico. Ele não recebe apenas uma tarefa. Recebe um fardo simbólico. Recebe uma chave de leitura do mundo. Recebe, sem pedir, uma convivência íntima com algo que o obriga a pensar sobre o que veio antes dele e sobre o que ainda será possível depois dele.

O nome duplicado e a força da analogia

A coincidência entre os dois Jonathans me parece um dos recursos mais belos do texto. Há algo muito delicado e muito agudo nessa duplicação. Porque ela embaralha as fronteiras entre sujeito e símbolo, entre homem e metáfora, entre biografia e história coletiva.

Para mim, essa escolha produz uma das maiores forças emocionais da peça. O personagem não olha para a tartaruga como quem observa algo distante. Existe entre eles uma ligação que já nasce marcada pela linguagem, pelo nome, por uma espécie de parentesco simbólico. É como se a peça dissesse que nenhum corpo nasce fora da história. O Jonathan jovem já carrega, no próprio nome, o peso de uma herança que não escolheu, mas da qual não consegue escapar.

E a beleza do espetáculo está em não transformar isso numa condenação simples. O legado, aqui, não aparece apenas como prisão. Ele também pode ser leitura, consciência, travessia. A peça não oferece uma resposta fechada sobre o que fazer com o passado. O que ela faz, com muita inteligência, é mostrar que ignorá-lo não é uma opção.

Os Porzanas e a caricatura feroz do invasor

Outro aspecto que me impressionou foi a invenção dos Porzanas. A peça acerta muito ao não representar a lógica colonial de maneira burocrática ou genérica. Em vez disso, ela cria uma figura que concentra arrogância, invasão, ridículo e violência numa presença cênica que me parece ao mesmo tempo fabular e concreta.

Os Porzanas funcionam como síntese do invasor. Não apenas daquele que chega pela força, mas daquele que se instala com a convicção de que pode reorganizar tudo a partir de si. São personagens que carregam esse impulso clássico do pensamento colonial: ocupar, rebatizar, domesticar, enquadrar, transformar o outro e a terra do outro em extensão da própria vontade.

O que me agrada muito nessa construção é que a peça não os trata com reverência. Ela os expõe também pelo grotesco. E isso é um acerto tremendo. Porque há algo de profundamente patético no colonizador quando seu verniz de autoridade começa a rachar. Jonathan parece compreender isso muito bem. Em vez de entregar uma representação endurecida do poder, ela introduz fissuras, ironias e sinais de caricatura que revelam a fragilidade moral dessa suposta superioridade.

A meia soquete como detalhe genial de crítica

Se eu tivesse que escolher um detalhe para exemplificar a inteligência visual e simbólica da peça, eu escolheria a meia soquete usada pelos Porzanas. Pode parecer um elemento pequeno, quase insignificante à primeira vista, mas para mim ele concentra uma leitura cênica muito afiada.

A meia soquete rebaixa a pose. Ela ridiculariza o refinamento. Ela desmonta a fantasia de civilidade com um detalhe de figurino que expõe o vazio por trás do gesto colonial. Há algo de muito forte nisso: transformar um acessório banal em signo de classe, de impostura e de violência mascarada.

Eu gostei demais dessa escolha porque ela mostra como a peça pensa nos detalhes. Não é um teatro que confia apenas no texto ou no tema. É um teatro que constrói sentido também na superfície das coisas, no figurino, na imagem, na textura simbólica do que está em cena. E quando isso acontece, a crítica deixa de estar só na fala. Ela passa a vibrar no corpo inteiro do espetáculo.

A referência à ave extinta e o colonialismo como devastação da vida

Uma das leituras mais potentes que fiz da peça está nessa possível relação entre os Porzanas e a ave nativa da ilha que já desapareceu. Independentemente de a peça explicitar isso de forma direta ou manter a referência mais insinuada, o efeito interpretativo é muito forte.

Porque, quando conecto esse nome à memória de uma espécie extinta, a peça ganha uma camada ainda mais dolorosa. O colonialismo deixa de ser lido apenas como dominação política e racial. Ele passa a aparecer também como máquina de devastação ecológica, apagamento ambiental e destruição de mundos inteiros.

Esse ponto me parece central. Muitas vezes, quando falamos de colonialismo, ficamos restritos às instituições, às guerras, às fronteiras, aos governos. Jonathan me faz lembrar que colonizar também é reordenar violentamente a vida, destruir ecossistemas, eliminar espécies, apagar os vínculos entre território e pertencimento. É violentar não só pessoas, mas o chão, os ritmos, os animais, a memória orgânica de um lugar.

Nesse sentido, a peça me parece extremamente sofisticada. Ela articula raça, território, história e natureza sem que uma dimensão apague a outra. Tudo convive. Tudo se contamina. Tudo se reforça.

Uma narrativa que emociona porque sabe contar

Talvez o que mais me fez admirar Jonathan no Festival de Curitiba tenha sido a forma. A peça poderia ter escolhido o caminho mais previsível: um discurso grave, uma linha dramática mais expositiva, uma condução excessivamente solene. Não escolhe. Felizmente, não escolhe.

O que encontro em cena é uma narrativa que confia na oralidade, na fabulação, na delicadeza e no humor. Isso, para mim, faz toda a diferença. Porque o espetáculo entende que profundidade não precisa ser sinônimo de rigidez. Dá para pensar grande sem endurecer a emoção. Dá para denunciar sem abandonar a beleza. Dá para criticar sem transformar o teatro em sermão.

Eu gosto muito quando uma obra política se lembra de continuar sendo arte. E foi exatamente essa sensação que tive aqui. Jonathan me parece uma peça muito consciente daquilo que quer dizer, mas também muito segura do modo como escolhe dizer. E esse equilíbrio é raro.

O impacto da primeira pessoa em cena e a sensação de escuta íntima

Uma das razões pelas quais a peça me tocou tanto é que ela não constrói distância. Há um senso de proximidade muito forte. A narração, a condução da história e a forma como o personagem se coloca no centro da própria travessia criam uma escuta íntima. Eu não me senti apenas diante de uma tese teatralmente ilustrada. Me senti diante de alguém tentando organizar a própria experiência e, ao fazer isso, revelando também um sistema maior de violência e permanência.

Essa escala íntima é fundamental. Porque impede que a peça se torne abstrata demais. O colonialismo, aqui, não é só conceito. Ele tem consequência emocional, corporal, afetiva. Ele atravessa a formação de um menino. Ele pesa sobre o nome. Ele organiza o legado. Ele decide quem herda o quê. Ele transforma missão em fardo. Ele transforma memória em responsabilidade.

E, para mim, quando a peça consegue fazer esse movimento, ela alcança um grau de verdade muito alto.

O que mais admirei em Jonathan

Se eu tivesse que resumir o que mais me encantou em Jonathan, eu diria que foi a capacidade de juntar delicadeza e contundência sem sacrificar nenhuma das duas. A peça é sensível, mas não ingênua. É crítica, mas não panfletária. É simbólica, mas não nebulosa. É poética, mas nunca vazia.

Eu admiro muito quando um espetáculo consegue criar analogias tão fortes sem parecer que está o tempo todo pedindo para o público decifrá-las. Em Jonathan, os símbolos respiram organicamente dentro da história. A tartaruga não é um emblema colado de fora. Os Porzanas não são apenas alegoria. A meia soquete não é um capricho visual. Tudo parece integrado a uma dramaturgia que sabe o que faz e sabe onde quer chegar.

E talvez seja por isso que a peça permaneça comigo mesmo depois do fim. Porque ela não entrega só uma boa ideia. Entrega uma forma de pensar através do teatro.

Minha crítica final

Saí de Jonathan no Festival de Curitiba com a sensação de ter visto uma das obras mais inteligentes e sensíveis dessa edição. É uma peça que confronta a lógica colonial sem abrir mão de encantamento, humor e densidade poética. Faz isso com uma maturidade rara, apostando em analogias muito bem construídas, em imagens que permanecem e numa condução narrativa que transforma história em experiência.

Para mim, Jonathan é daquelas peças que justificam o teatro como espaço de pensamento vivo. Não porque oferece respostas prontas, mas porque me empurra para perguntas mais fundas. Sobre herança. Sobre ocupação. Sobre memória. Sobre o que sobrevive. Sobre o que foi apagado. E sobre quem ainda precisa disputar o direito de narrar o próprio futuro.

É uma peça bonita, firme, inventiva e profundamente necessária. E o melhor elogio que posso fazer a ela é este: raramente vejo uma crítica ao colonialismo ganhar corpo com tanta elegância, tanta inteligência e tanta humanidade ao mesmo tempo.

Compartilhe: