Um dos espetáculos mais potentes da cena contemporânea brasileira chega ao Festival de Curitiba com força estética e discurso afiado. “A Bailarina Fantasma”, obra do Plataforma – Estúdio de Produção Cultural, será apresentada nos dias 7 e 8 de abril, no Teatro Cleon Jacques, dentro da Mostra Lucia Camargo.
Indicada aos principais prêmios do país e com sessões esgotadas rapidamente, a montagem se consolida como uma das experiências mais impactantes da programação.

Degas revisitado: do clássico à crítica contemporânea
O espetáculo parte da icônica escultura “A Bailarina de 14 anos”, de Edgar Degas, para construir uma reflexão profunda sobre o universo do balé clássico.
A obra, que já foi alvo de controvérsias desde sua criação no século XIX, serve aqui como ponto de partida para investigar:
- violência simbólica
- racismo estrutural
- apagamentos históricos
- padrões estéticos excludentes
A partir dessa releitura, o espetáculo desloca o olhar do público, revelando aquilo que tradicionalmente permanece invisível nos bastidores da dança.
Um corpo em cena — e em confronto
Protagonizado pela bailarina Verônica Santos, o espetáculo mergulha em experiências reais vividas por uma artista negra dentro de um ambiente historicamente elitizado.
Sua trajetória no balé clássico, marcada por disciplina e rigor, também expõe tensões constantes relacionadas à identidade, pertencimento e visibilidade.
A dramaturgia, assinada por Dione Carlos, transforma essa vivência em um ritual cênico que mistura denúncia e poesia.
A proposta é fazer do palco um espaço de reconstrução — e também de enfrentamento.
Peça-instalação: o público dentro da experiência
Diferente de uma montagem tradicional, “A Bailarina Fantasma” adota o formato de peça-instalação, criando uma experiência imersiva.
O público não ocupa lugares fixos. Ele circula, acompanha, observa — tornando-se parte da cena.
Essa escolha estética:
- rompe a distância entre plateia e performer
- intensifica a experiência sensorial
- revela os bastidores como espaço dramático
O resultado é uma atmosfera íntima e inquietante, onde cada movimento carrega peso simbólico.
Arte, política e ancestralidade
A obra também dialoga com questões mais amplas, como colonialidade e diáspora, propondo uma releitura da dança como expressão ancestral.
Segundo a dramaturgia, o espetáculo constrói uma espécie de:
“quilombo-erótico-místico”
— um espaço simbólico de resistência, reconstrução e liberdade do corpo.
Aqui, o balé deixa de ser apenas técnica e passa a ser território de disputa, identidade e memória.
Reconhecimento e trajetória
Desde sua estreia em 2024, o espetáculo acumula importantes reconhecimentos:
- Indicação ao Prêmio Shell de Teatro (Melhor Cenário)
- Indicação ao Prêmio APCA (Melhor Espetáculo e Intérprete)
- Vencedor do Prêmio Denilto Gomes de Dança 2025
Além disso, já passou por festivais e mostras relevantes no país, consolidando sua força na cena contemporânea.
Um dos destaques do Festival de Curitiba
Dentro da Mostra Lucia Camargo, “A Bailarina Fantasma” se destaca como uma obra que ultrapassa os limites da linguagem artística.
É teatro, dança, instalação — mas, acima de tudo, é um gesto político.
Uma experiência que provoca, desconstrói e ressignifica o olhar sobre a arte e os corpos que a constroem.
Serviço
🎭 A Bailarina Fantasma – Mostra Lucia Camargo
📍 Local: Teatro Cleon Jacques
📅 Datas: 7 e 8 de abril
🕣 Horário: 20h30
🎟️ Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br
🎭 34º Festival de Curitiba
📅 De 30 de março a 12 de abril de 2026
💰 Valores: de R$0 a R$85 (+ taxas)
“A Bailarina Fantasma” não é apenas um espetáculo — é uma experiência que escancara as fissuras de um sistema e convida o público a enxergar além da superfície. Uma obra necessária, urgente e profundamente transformadora.


