Em um festival que tradicionalmente reúne alguns dos trabalhos mais pulsantes da cena brasileira, Atrás das Paredes surge como uma das montagens mais incômodas e relevantes da Mostra Lucia Camargo. A peça da Cia. Plágio de Teatro, do Distrito Federal, será apresentada nos dias 7 e 8 de abril, às 20h30, na CAIXA Cultural Curitiba, levando ao público uma comédia dramática que transforma um almoço de domingo em campo de tensão moral, psicológica e social.

Ao escolher o espaço doméstico como território dramático, o espetáculo acerta em cheio no nervo de um tema que permanece atual e urgente: aquilo que se esconde sob a aparência da convivência civilizada. Em Atrás das Paredes, o público ocupa o lugar de um convidado invisível, testemunhando uma confraternização familiar aparentemente banal que, pouco a pouco, deixa escapar fissuras profundas. Violência doméstica, perversões da intimidade, falência ética e a capacidade destrutiva do ser humano contra os seus compõem o centro da experiência dramatúrgica.
Um almoço comum que se transforma em vertigem
A trama parte de um gesto simples. Em um domingo, uma família se prepara para o almoço. Flora, esposa de Simão, decide fazer uma surpresa e convida a família vizinha para celebrar um aniversário. O que parecia ser apenas mais um encontro entre pessoas próximas vai se convertendo em um jogo de revelações, constrangimentos e violências sutis — algumas simbólicas, outras devastadoramente concretas.
Essa construção é uma das forças da peça. O texto não depende de grandes acontecimentos externos, mas da erosão progressiva das aparências. O que estava submerso começa a emergir à mesa, nos silêncios, nos desvios de fala, nas tensões entre os personagens. O riso, quando vem, não alivia: ele surge nervoso, desconfortável, como reação diante do que a encenação expõe sobre a intimidade e sobre a fragilidade das convenções sociais.
A dramaturgia de Santiago Serrano e a anatomia do humano
Autor do texto, o argentino Santiago Serrano é um dramaturgo com formação em psicologia e uma trajetória consolidada em diferentes países. Estabelecido em Brasília desde 2005, ele desenvolveu uma escrita realista marcada pela construção de personagens multidimensionais e pela recusa de respostas fáceis. Em suas peças, nada é exatamente o que parece num primeiro momento.
Essa marca aparece com nitidez em Atrás das Paredes. O espetáculo não distribui culpas de forma simplista nem organiza o mundo entre heróis e vilões. Ao contrário, insiste em mostrar seres humanos em sua riqueza e em sua tragédia, atravessados por desejo, delírio, frustração, impulso e contradição. O resultado é uma dramaturgia que observa a violência não apenas como explosão física ou evento extremo, mas como processo cotidiano, muitas vezes naturalizado dentro das “quatro paredes”.
Há ainda um elemento importante nessa escrita: Serrano costuma criar a partir de vínculos concretos com os intérpretes. Em declaração presente no material da produção, ele define esse processo como uma espécie de incorporação sensível do outro, quase mediúnica, em que a escrita se torna ato de entrega. Esse método ajuda a explicar a densidade humana de seus textos e a precisão com que seus personagens parecem respirar para além da página.
Direção concentrada, espaço único e alta temperatura cênica
Com direção de Sérgio Sartório, a peça se passa quase inteiramente em um único cômodo da casa, em um ato de 60 minutos. Essa unidade espacial intensifica o confinamento dramático e amplia a sensação de voyeurismo que estrutura a experiência do espectador. O público não é conduzido por grandes deslocamentos; ele é mantido dentro do ambiente, como se estivesse preso àquela sala, obrigado a encarar o que emerge quando a intimidade deixa de ser abrigo e passa a ser ameaça.
Em cena, estão André Deca, Bianca Terraza, Carmem Moretzsohn, Chico Sant’Anna e Daniela Vasconcelos, formando um elenco capaz de sustentar as múltiplas camadas do texto. A direção parece apostar menos no excesso e mais na combustão interna das relações, o que favorece a progressão do mal-estar e dá peso às ambiguidades dos personagens.
Dez anos de Plágio Companhia de Teatro
A presença de Atrás das Paredes no Festival de Curitiba também marca um momento importante para a trajetória da companhia. O espetáculo celebra os dez anos de atividades da Plágio Companhia de Teatro, grupo que, ao longo dessa década, produziu 14 montagens e conquistou 18 prêmios. Mais do que um marco numérico, a estreia na Mostra Lucia Camargo funciona como afirmação de maturidade artística e de continuidade de uma parceria criativa importante com Santiago Serrano.
Essa colaboração já rendeu outros trabalhos da companhia com textos do autor, como Noctiluzes, Autópsia de um Beija-flor e Saiba o seu lugar, reforçando uma afinidade rara entre dramaturgia e grupo. O festival, nesse contexto, não apenas exibe um novo espetáculo: ele acolhe o resultado de um processo continuado de criação.
Um espetáculo sobre o que a sociedade prefere não ver
Em tempos em que a violência muitas vezes se disfarça de rotina, de costume ou de intimidade legitimada, Atrás das Paredes tem o mérito de deslocar o olhar do espectador. Não se trata apenas de assistir a uma história, mas de ser confrontado com uma pergunta incômoda: quantas violências seguem invisíveis justamente porque aprenderam a se esconder na vida comum?
É essa inteligência de abordagem que torna a peça uma das atrações mais fortes da programação. Ao articular realismo, humor tenso e observação psicológica, o espetáculo transforma a casa em espelho cruel da sociabilidade contemporânea. E faz isso sem didatismo, sem panfleto e sem simplificação — apenas com teatro de alta voltagem, centrado em personagens, conflito e subtexto.
Serviço
Atrás das Paredes – Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Data: 7 e 8 de abril de 2026
Horário: 20h30
Local: CAIXA Cultural Curitiba
Classificação: 14 anos
Categoria: Comédia Dramática
Duração: 60 minutos
34º Festival de Curitiba
Data: de 30 de março a 12 de abril de 2026
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3.


