MOSTRA LUCIA CAMARGO – Bailarinas Incendiadas estreia no Brasil no Festival de Curitiba

Entre os destaques internacionais da Mostra Lucia Camargo, Bailarinas Incendiadas chega ao 34º Festival de Curitiba como uma das montagens mais instigantes e conceitualmente potentes da edição. O espetáculo, criado pela diretora argentina Luciana Acuña e pelo Grupo Krapp, faz sua estreia no Brasil nos dias 9 e 10 de abril, às 20h30, no Teatro Cleon Jacques, propondo uma experiência cênica que cruza dança, teatro, música e cinema para investigar o corpo feminino, a fabricação da beleza e a permanência da violência no imaginário artístico.

Foto: Reprodução
Carla Di Grazia, Milva Leonardi, ( der izq) adelante y Luciana Acuña, Agustín Fortuny atrás, performers del equipos de “Bailarinas incendiadas” en un pasaje de la obra fiesta, en la función del 28 de mayo en el Centro de Creación Contemporánea ARTHAUS de la ciudad de Buenos Aires.

A montagem parte de um dado histórico ao mesmo tempo real e perturbador: no século 19, ser bailarina podia significar viver em permanente estado de risco. Um ensaio do professor e historiador da arte Ignacio Gonzales, da Faculdade de Buenos Aires, revelou a recorrência de acidentes provocados pela iluminação com lampiões a gás, que incendiavam os figurinos de tule usados pelas bailarinas em cena. A partir desse material, Luciana Acuña constrói uma obra que não se limita a recuperar uma curiosidade histórica, mas a transforma em pergunta radical sobre o preço da beleza e sobre aquilo que o espetáculo esconde para existir.

Luciana Acuña transforma tragédia histórica em experiência cênica radical

Reconhecida como uma das criadoras mais importantes da cena contemporânea argentina, Luciana Acuña encontrou nessa pesquisa um ponto de partida poderoso para tensionar toda uma tradição estética. Em Bailarinas Incendiadas, a combustão dos vestidos e dos corpos não é tratada apenas como acidente, mas como metáfora de um sistema de exposição, consumo e sacrifício do feminino. A pergunta que atravessa a criação é direta e devastadora: o que ainda resta, hoje, dessa lógica de morrer pela beleza?

A própria diretora formula essa questão de maneira contundente ao afirmar: “Bailarinas que pegam fogo por causa de seus vestidos. Vestidos que produzem beleza. Morrer pela beleza. Vale a pena perguntar o que disso ainda permanece hoje. E essa pergunta fica no ar”. A frase sintetiza o centro nervoso da obra: uma reflexão que ultrapassa o balé e alcança as formas contemporâneas de exaustão, exibição e violência simbólica que ainda recaem sobre os corpos femininos em cena e fora dela.

Um espetáculo sobre corpos expostos, memória e participação

O que torna Bailarinas Incendiadas particularmente singular é a recusa da distância confortável entre palco e plateia. A montagem exige das intérpretes um trabalho intenso de entrega física e emocional, mas também convoca o público a participar ativamente da experiência, como se todos compartilhassem o espaço dessa fogueira simbólica. Em vez de contemplação passiva, a obra propõe imersão, risco e proximidade.

Luciana Acuña explica essa escolha com clareza: “Desde o começo tive a intuição de que todos deveriam estar dentro dessa fogueira. Não era uma obra para ser vista de longe. Não havia tanto algo para mostrar, mas sim algo para compartilhar. A experiência deveria ser vivida em igualdade com o espectador”. A declaração ilumina o princípio ético e estético da montagem: mais do que apresentar um tema, o espetáculo deseja fazer o público atravessá-lo corporalmente.

Entre a história e o mito, uma cena atravessada por fogo

A pesquisa de Acuña e do Grupo Krapp não se restringe ao dado histórico das bailarinas queimadas. A criação se expande para todo o universo estético e simbólico do período, investigando quem eram essas mulheres, como eram vistas e até que ponto a violência sofrida por elas também fazia parte da maquinaria do espetáculo. Nesse percurso, a diretora incorpora ainda a figura de La Telesita, santa popular do norte argentino, especialmente cultuada em Santiago del Estero, que também teria morrido incendiada.

Esse gesto alarga o alcance da obra. O fogo deixa de ser apenas fato histórico e passa a funcionar como elo entre arte, martírio, devoção, desejo e extermínio. É justamente nessa zona ambígua, entre a imagem sedutora e a destruição concreta, que Bailarinas Incendiadas encontra sua maior força poética.

A estreia brasileira de um dos nomes mais importantes da cena argentina

A chegada do espetáculo ao Festival de Curitiba reforça o papel da Mostra Lucia Camargo como espaço de encontro entre linguagens e geografias artísticas. Com o Grupo Krapp, Luciana Acuña construiu uma trajetória reconhecida na Argentina e internacionalmente pela capacidade de tensionar formatos, borrar fronteiras entre disciplinas e criar obras de alta densidade visual e conceitual. Em Curitiba, essa assinatura aparece em uma montagem multiplataforma, com vídeo, música, efeitos e presença física intensa, em uma encenação que articula impacto visual e elaboração crítica com raro equilíbrio.

Não por acaso, Bailarinas Incendiadas chega ao Brasil cercado de expectativa. O espetáculo mobiliza temas contemporâneos decisivos — a espetacularização do corpo, a permanência de estruturas de sacrifício e a violência inscrita nos códigos da beleza — sem perder a sofisticação formal. Trata-se de uma obra que pensa a cena, mas também pensa o olhar que a consome.

Bailarinas Incendiadas é uma das experiências mais fortes do Festival de Curitiba

Em uma edição que já se anuncia diversa e contundente, Bailarinas Incendiadas se destaca por sua combinação de rigor conceitual, invenção cênica e densidade política. É o tipo de trabalho que não apenas impressiona pela forma, mas permanece reverberando depois do fim da sessão. Ao trazer para o presente imagens de mulheres que literalmente ardiam em nome do espetáculo, Luciana Acuña devolve ao palco uma pergunta incômoda e necessária sobre o que ainda estamos dispostos a naturalizar em nome da beleza, da arte e da fascinação.

Serviço

Bailarinas Incendiadas – Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Local: Teatro Cleon Jacques – Rua Prof. Nilo Brandão, 710 – São Lourenço
Data: 9 e 10 de abril de 2026
Horário: 20h30
Categoria: Drama
Classificação: Livre
Duração: 75 minutos

34º Festival de Curitiba
Data: de 30 de março a 12 de abril de 2026
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3.

Compartilhe: