Cabo Enrolado no Festival de Curitiba chega como um dos trabalhos mais contundentes da Mostra Lucia Camargo na 34ª edição do evento. Criado, interpretado e dirigido por Julio Lorosh, o solo da Cia. Graxa será apresentado nos dias 11 e 12 de abril, no Teatro José Maria Santos, levando ao palco uma reflexão afiada sobre periferia, trabalho, urbanização e os mecanismos históricos que moldam a experiência de quem cresce nas margens da metrópole.

Com dramaturgia ancorada na memória pessoal e em uma pesquisa cênica de forte densidade política, o espetáculo transforma a trajetória de um jovem periférico em lente para observar processos muito maiores. Em cena, infância, violência, sonhos de ascensão e precarização do trabalho se entrelaçam em uma narrativa que parte do íntimo para atingir o estrutural.
Um solo que nasce da dor e se transforma em arte de enfrentamento
A origem de Cabo Enrolado no Festival de Curitiba está em um episódio traumático da vida de Julio Lorosh. Em novembro de 2015, seu irmão foi baleado na Avenida Radial Leste, em São Paulo, e ficou paraplégico. A partir dessa ferida, o artista iniciou uma investigação sobre o sujeito periférico paulistano, seus modos de habitar a cidade, suas estratégias de sobrevivência e a violência que atravessa seu cotidiano.
Essa experiência não aparece no espetáculo como simples confissão autobiográfica. Ela é reelaborada em cena como impulso estético e político. O resultado é um trabalho que não busca piedade, mas entendimento. Em vez de recorrer ao discurso fácil, a montagem articula denúncia, poesia e musicalidade para expor como a cidade produz hierarquias, distribui precariedades e condiciona destinos.
Da casa em construção ao trabalho por aplicativo
A imagem central da peça é poderosa: sobre os tijolos de uma casa em construção, uma infância vai sendo edificada nas bordas da metrópole. Esse ponto de partida ajuda a compreender a lógica da obra. O crescimento do personagem se dá junto com a expansão urbana, com o crédito, com as promessas de mobilidade social e com as ilusões de progresso vendidas às periferias.
Mais tarde, esse mesmo jovem atravessa o mercado de trabalho mediado pelos aplicativos de entrega, entrando em contato com uma ideia de liberdade que, no fundo, mascara novas formas de exploração. A peça traça, assim, um paralelo entre passado e presente, entre o Brasil colonial e o capitalismo de plataforma, mostrando como determinadas estruturas de subalternização apenas mudam de aparência.
Em Cabo Enrolado no Festival de Curitiba, o trabalho não surge como tema abstrato. Ele aparece encarnado no corpo, no cansaço, na urgência e na luta diária por dignidade. É nessa concretude que o espetáculo encontra sua força.
Humor, música e confronto direto com a plateia
Um dos grandes méritos da montagem está em sua linguagem. Embora trate de temas duros, o espetáculo não se entrega à solenidade. Julio Lorosh conduz a cena em diálogo direto com o público, combinando humor, ironia, enfrentamento e lirismo. Essa aproximação cria um jogo vivo, em que o espectador não apenas acompanha uma narrativa, mas é implicado por ela.
A musicalidade urbana é parte essencial dessa construção dramatúrgica. Funk, hip-hop e outras expressões das periferias entram na encenação não como ornamento, mas como pulsação de pensamento e de presença. A trilha e a criação musical ajudam a estruturar a experiência cênica, reforçando a dimensão política do espetáculo sem sacrificar sua potência artística.
Cabo Enrolado no Festival de Curitiba propõe novas imagens da periferia
Mais do que contar uma história individual, a peça procura romper imagens cristalizadas sobre o sujeito periférico. Em vez de reforçar clichês, o trabalho investiga a subjetividade que nasce nas bordas da cidade, marcada por violência e contradição, mas também por inteligência, invenção, humor e desejo.
Esse gesto é central para a proposta da Cia. Graxa, fundada em 2019 com o objetivo de criar poéticas baseadas na experiência periférica. O grupo atua especialmente na zona leste de São Paulo, em diálogo com coletivos locais e com processos de formação artística, o que ajuda a sustentar a coerência entre discurso, prática e território.
Em Cabo Enrolado no Festival de Curitiba, essa perspectiva se consolida em um espetáculo que observa a cidade a partir de quem a constrói, a atravessa e a sustenta. É uma mudança de foco que faz toda a diferença.
Um dos espetáculos mais urgentes da Mostra Lucia Camargo
Ao chegar ao Festival de Curitiba, Cabo Enrolado carrega uma trajetória de temporadas em espaços como Teatro Flávio Império, Teatro Artur de Azevedo e Sesc Belenzinho, além de participações em eventos como o Festival de Teatro de Heliópolis e a Semana do Hip-Hop do Sesc Bauru. Essa circulação reforça a força de uma obra que vem se consolidando como uma das vozes importantes do teatro contemporâneo paulista.
No contexto do festival, o espetáculo se destaca por articular com precisão memória individual e crítica social. É um trabalho que fala de urbanização, colonialidade e trabalho precarizado sem perder a dimensão sensível do humano. E justamente por isso atinge em cheio: porque faz da cena um espaço de pensamento, mas também de presença, escuta e abalo.
Serviço
Cabo Enrolado – Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Data: 11 de abril, às 20h30, e 12 de abril, às 18h30
Local: Teatro José Maria Santos – Rua Treze de Maio, 655, São Francisco
Classificação: 12 anos
Categoria: Teatro Contemporâneo
Duração: 75 minutos
Acessibilidade: espetáculo com intérprete de Libras
34º Festival de Curitiba
Data: de 30 de março a 12 de abril de 2026
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller, Piso L3.


