MOSTRA LUCIA CAMARGO – Como um Palhaço estreia no Festival de Curitiba com humor e crítica

Há algo de revelador no modo como o palhaço voltou a ocupar o imaginário contemporâneo. Antes associado ao jogo, à desordem e à alegria, o clown passou a circular também como imagem de medo, de caricatura política e de desconforto social. É justamente dessa transformação que parte Como um Palhaço, espetáculo que integra a Mostra Lucia Camargo da 34ª edição do Festival de Curitiba e será apresentado nos dias 10 e 11 de abril, no Teatro da CAIXA Cultural Curitiba. A nova criação de Helena Bittencourt e Goos Meeuwsen investiga a trajetória da palhaçaria ao longo da história e tensiona o lugar simbólico do palhaço na arte e fora dela.

Foto: Renato Mangolin
Foto: Renato Mangolin

Em vez de recorrer à nostalgia ou à reverência fácil, a montagem prefere a fricção. A pergunta que a sustenta é simples e incômoda: o que aconteceu com a figura do palhaço? O espetáculo parte dessa provocação para construir uma comédia que cruza tradição, tecnologia, pesquisa histórica e desconstrução estética, sugerindo que a crise do clown talvez diga muito sobre o estado atual do próprio riso.

Entre conferência e colapso, o espetáculo desmonta a imagem clássica do clown

A encenação começa como uma conferência acadêmica sobre palhaços. Dois intelectuais ocupam um púlpito e parecem dispostos a conduzir uma exposição racional sobre o tema. Mas a solenidade não dura. Aos poucos, o discurso é atravessado por desvios, interrupções e acontecimentos inesperados, e a estrutura da conferência se desfaz em um jogo cênico mais instável, lúdico e provocador. Esse deslocamento formal é um dos achados da peça: ela transforma a própria tentativa de explicar o palhaço em motor de comicidade e estranhamento.

Helena Bittencourt resume com precisão o gesto central da obra ao afirmar que o espetáculo “desconstrói a imagem mítica e ficcional do palhaço, pesquisando os múltiplos significados que a profissão adquiriu ao longo do tempo”, enquanto cria “alegorias, cenários lúdicos e situações ficcionais”. A fala indica o horizonte da criação: não se trata de restaurar uma essência perdida, mas de investigar como esse personagem foi sendo deformado, apropriado e ressignificado conforme mudavam as sensibilidades históricas.

Como um Palhaço observa a metamorfose de um personagem histórico

Ao longo do espetáculo, o palhaço deixa de ser apenas uma figura do circo para se tornar um campo de disputa simbólica. A pesquisa que embasa Como um Palhaço atravessa referências que vão de tradições indígenas milenares aos bufões egípcios, da commedia dell’arte ao circo moderno. Em todas essas formas, permanece algo comum: o clown expõe o ridículo, embaralha hierarquias e revela aquilo que o poder preferiria esconder.

O problema é que, no presente, essa imagem já não chega intacta ao espectador. Goos Meeuwsen observa que o riso continua sendo elemento essencial da experiência humana, porque conecta, alivia e nos devolve aos nossos próprios absurdos. Mas a figura do palhaço mudou. O rosto pintado, o nariz vermelho e os sapatos grandes, diz ele, passaram a soar para muitos como algo ultrapassado ou inquietante. Essa mutação, longe de ser apenas estética, ajuda a compreender a mudança mais ampla das formas de recepção, do humor e da própria relação entre espetáculo e sociedade.

Entre o riso e o desconforto, a peça escolhe a inteligência

Um dos méritos de Como um Palhaço está em recusar o caminho mais fácil da homenagem melancólica. Helena Bittencourt deixa isso explícito quando afirma que o trabalho “não é sobre lamentar a perda do lugar do palhaço na sociedade”, nem um apelo por reconhecimento de uma imagem ultrapassada. “É sobre riso. É sobre transformação. É sobre de onde viemos, como a sociedade evolui e como algumas emoções permanecem universais. É sobre abraçar a alegria da falta de vergonha.”

Essa formulação é importante porque ajuda a situar o espetáculo no presente. Em vez de tratar o clown como ruína cultural, a peça o reposiciona como ferramenta crítica. O palhaço aqui não é apenas personagem, mas método: um modo de desmontar o excesso de seriedade, de interromper discursos estabilizados e de devolver o corpo, o erro e o absurdo ao centro da cena.

Uma criação de trajetória internacional que retorna ao Brasil em novo momento

Criado no Rio de Janeiro, Como um Palhaço marcou o retorno de Helena e Goos aos palcos brasileiros depois de quase oito anos. Desde a estreia, em setembro de 2025, no Teatro de Arena do Sesc Copacabana, a montagem já alcançou cerca de 5 mil espectadores, com temporadas no Brasil e na Holanda. Em 2026, abriu o festival This is not a circus, no Theater Bellevue, em Amsterdã.

A trajetória da dupla ajuda a explicar a consistência do projeto. Helena Bittencourt, formada pela UniRio e pela Escola Nacional de Circo, completa 30 anos de carreira em 2025. Goos Meeuwsen, artista holandês formado pela École Nationale de Cirque, em Montreal, traz para a parceria uma experiência internacional que inclui criações próprias e participações em produções como Corteo e Love – The Beatles, do Cirque du Soleil, além de Bianco su Bianco, da Cia Finzi Pasca. Em cena, os dois assinam direção, dramaturgia, conceito e interpretação, sustentando uma obra que expande o campo tradicional da palhaçaria com recursos videográficos, composição visual e elaboração estética refinada.

No Festival de Curitiba, uma comédia sobre o que ainda nos faz rir

Em um festival que costuma reunir obras de forte densidade política e experimental, Como um Palhaço se destaca por operar nesse mesmo campo sem abrir mão do humor. É uma peça sobre o riso, mas também sobre sua corrosão; sobre a tradição do clown, mas também sobre sua falência como imagem pacificada; sobre a alegria, mas sempre à beira do desconforto.

Ao recolocar o palhaço sob escrutínio, a montagem parece fazer uma pergunta maior: o que uma sociedade revela sobre si quando já não sabe exatamente o que fazer com suas figuras do riso? Em vez de responder de forma direta, o espetáculo prefere transformar essa dúvida em linguagem cênica. E é justamente aí que encontra sua força.

Serviço

Como um Palhaço – Like a Clown – Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Data: 10 e 11 de abril
Local: Teatro da CAIXA Cultural Curitiba – Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Centro
Classificação: 8 anos
Categoria: Comédia
Duração: 1h20

34º Festival de Curitiba
Data: 30 de março a 12 de abril de 2026
Valores: de R$ 0 a R$ 85, mais taxas administrativas
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller, Piso L3.

Compartilhe: