MOSTRA LUCIA CAMARGO – Deriva estreia na Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba

Entre os espetáculos mais instigantes da 34ª edição do Festival de Curitiba, Deriva no Festival de Curitiba se destaca por deslocar o olhar do público para algo aparentemente simples, mas cada vez mais raro: a possibilidade de estar presente no espaço que se atravessa. Criado para marcar os 18 anos da Súbita Companhia de Teatro, o espetáculo estreia na Mostra Lucia Camargo nos dias 6 e 7 de abril, às 18h30, no Teatro José Maria Santos, propondo uma experiência cênica que parte da cidade para falar de tempo, corpo, memória e percepção.

Foto: Mateus Tropo
Foto: Mateus Tropo

Mais do que uma peça, Deriva se apresenta como uma convocação à desaceleração. Em um tempo em que o deslocamento costuma ser reduzido à pressa, ao automatismo e à produtividade, a obra propõe o contrário: transformar o caminhar em atenção, o trajeto em linguagem e o espaço urbano em campo de imaginação crítica. A operação é simples apenas na aparência. O espetáculo faz da caminhada uma forma de resistência ao embrutecimento cotidiano e sugere que olhar de novo para a cidade talvez seja também uma forma de reaprender a habitá-la.

A cidade como personagem e campo de disputa

O ponto de partida conceitual de Deriva no Festival de Curitiba está numa provocação de Milton Santos: “o centro do mundo está em todo lugar”. A frase não aparece como ornamento intelectual, mas como eixo de pensamento para uma criação que investiga o centro urbano como território vivo de disputa, memória, conflito e invenção. Com dramaturgia de Maíra Lour e Pablito Kucarz, a montagem funde teatro e dança contemporânea para traduzir no palco as contradições da urbanidade, revelando as camadas históricas, arquitetônicas e identitárias que atravessam a vida nas cidades.

É justamente nesse movimento que a obra ganha espessura. Em vez de tratar o espaço urbano como pano de fundo, Deriva o assume como matéria dramatúrgica. O centro da cidade deixa de ser cenário e passa a ser organismo, arquivo e fricção. O que se vê em cena é menos uma representação naturalista de ruas e edifícios e mais uma cartografia sensível de forças: violências, encantamentos, rastros, apagamentos e pulsões de pertencimento.

Uma criação nascida da experiência direta com o espaço urbano

A consistência de Deriva no Festival de Curitiba está diretamente ligada ao processo de criação. Para construir o espetáculo, a Súbita Companhia mergulhou em residências e experiências imersivas que cruzaram voz, paisagem, audiovisual, corpo, tecnologia e espaço urbano. Entre essas interlocuções estiveram a dramaturga Carla Kinzo, com a residência “Voz e paisagem — a cidade como personagem”; a artista visual Sol Faganello, em “Audiovisual, corpo e cidade”; e o artista argentino Iván Haidar, em “Corpo e Tecnologias”.

Esse percurso aparece na cena não como ilustração de pesquisa, mas como densidade incorporada aos corpos. A tentativa, como indica o material do espetáculo, foi traduzir para a presença cênica “as contradições, violências, encantamentos e potências de uma cidade em constante reformulação sobre si mesma”. Há, portanto, um esforço de fazer o palco absorver a instabilidade do espaço urbano sem domesticá-la. O resultado tende a ser uma obra em que o movimento não é apenas coreográfico: é também histórico, político e perceptivo.

Maíra Lour e a dramaturgia de um espetáculo em permanente movimento

Diretora artística da montagem, Maíra Lour define Deriva como “um espetáculo em movimento constante sobre si mesmo”, capaz de se adaptar às especificidades dos territórios em que é apresentado e de estabelecer conexões diretas com a paisagem, a história local e o público presente. A definição é precisa porque aponta para uma qualidade importante da obra: sua recusa à fixidez.

Em vez de oferecer uma forma fechada, Deriva no Festival de Curitiba assume a mobilidade como princípio. O espetáculo se reorganiza conforme o lugar, recolhe os traços do entorno e trata a cidade não como cenário passivo, mas como interlocutora. Essa opção o aproxima de uma linhagem de trabalhos contemporâneos que pensam o teatro e a dança a partir da experiência do espaço, mas o faz sem perder vínculo com questões brasileiras muito concretas: a ocupação desigual do centro, os rastros de violência inscritos na arquitetura e a multiplicidade de corpos que produzem as narrativas urbanas.

Corpo, sobreposição e imagem: a cidade atravessada pela dança

A dramaturgia coreográfica de Deriva no Festival de Curitiba nasce da pesquisa continuada entre Maíra Lour e a diretora de movimento Juliana Adur. Juntas, elas trabalham com sobreposições, rastros, qualidades de movimento e intensidades recolhidas das experiências nas ruas centrais da cidade. Não se trata de reproduzir a rua, mas de deixar que ela impregne a cena — em suas tensões, seus ritmos e seus resíduos.

Essa pesquisa foi reconhecida no principal prêmio do teatro paranaense: Maíra Lour recebeu o Troféu Gralha Azul de Melhor Direção no biênio 2024/2025. O dado não funciona apenas como selo de prestígio, mas como indicativo da maturidade estética de um trabalho que vem consolidando a Súbita Companhia como uma das formações mais interessantes da cena local.

A estreia da Súbita na Mostra Lucia Camargo

Há também um peso simbólico importante na presença de Deriva nesta edição do festival. Embora a Súbita Companhia de Teatro tenha uma longa relação com o Festival de Curitiba, esta é sua estreia na Mostra Lucia Camargo — espaço que concentra parte da seleção curatorial mais prestigiada do evento. Antes disso, o grupo já havia marcado presença em diferentes momentos do festival, desde a estreia com “Diga aonde dói”, em 2009, na Mostra Fringe, até trabalhos como “Coração de Congelador”, “Porque não estou onde você está”, “Amores Difíceis”, “Extraordinário Cotidiano”, “Câmera Escura”, “O Arquipélago” e a Mostra Súbita Companhia em 2024.

Esse percurso ajuda a dimensionar a importância de Deriva no Festival de Curitiba. Não se trata apenas de mais uma estreia, mas da entrada de uma companhia curitibana madura em um espaço central da programação, com uma obra concebida para celebrar sua maioridade artística. O gesto tem relevância para o grupo e para a própria cena local, ao reafirmar que a produção paranaense não apenas acompanha, mas formula caminhos contemporâneos de linguagem.

Um espetáculo sobre reaprender a olhar

No centro de Deriva está uma pergunta silenciosa, mas decisiva: o que deixamos de ver quando atravessamos a cidade apenas para chegar a outro lugar? A peça parece responder propondo que a arte ainda pode reativar a percepção e devolver complexidade ao que se tornou automático. Nesse sentido, sua força não está em enunciar uma tese, mas em criar uma experiência de suspensão, em que o público é convidado a reconstruir o olhar sobre lugares supostamente conhecidos.

Em uma programação repleta de grandes nomes e montagens de alcance nacional e internacional, Deriva no Festival de Curitiba chama atenção por sua escala de escuta: menos espetacular no sentido convencional, mais radical em sua tentativa de fazer do teatro uma forma de presença. E talvez seja justamente aí que resida sua potência maior.

Serviço

Deriva – Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Dias: 6 e 7 de abril, às 18h30
Local: Teatro José Maria Santos – Rua 13 de Maio, 655
Duração: 60 minutos
Gênero: Contemporâneo
Classificação: 14 anos

34º Festival de Curitiba
Data: de 30 de março a 12 de abril de 2026
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3.

Compartilhe: