Há espetáculos que atualizam um clássico. Outros o implodem para reconstruí-lo a partir do presente. É nessa segunda categoria que se inscreve Édipo REC no Festival de Curitiba, nova criação do pernambucano Grupo Magiluth que chega à 34ª edição do evento como uma das montagens mais aguardadas da Mostra Lucia Camargo. Nos dias 8 e 9 de abril, às 20h30, a companhia ocupa a Ópera de Arame com uma releitura radical de Édipo Rei, de Sófocles, atravessada por linguagem cinematográfica, cultura pop, tecnobrega, participação ativa do público e uma reflexão cortante sobre a realidade filtrada das redes sociais.

A escolha da Ópera de Arame não é casual. Ao retornar com sua programação a um dos espaços mais emblemáticos de Curitiba, o festival entrega ao Magiluth a escala ideal para uma montagem pensada para o excesso, para a fricção e para o acontecimento. Não se trata apenas de apresentar uma peça, mas de instaurar uma experiência coletiva de alta voltagem estética e sensorial.
Uma tragédia grega em chave de festa
O que o Magiluth propõe com Édipo REC no Festival de Curitiba está longe de uma transposição reverente do texto clássico. A montagem é dividida em duas partes e parte justamente dessa ruptura formal para construir seu impacto. Na primeira metade, o espetáculo assume a forma de um grande “festão”, nas palavras do dramaturgo Giordano Castro. O público é convidado a subir ao palco, dançar, beber, circular e mergulhar numa atmosfera de discotecagem e pulsação coletiva. No centro dessa celebração está o DJ Édipo, figura que substitui o herói trágico tradicional por um forasteiro capaz de devolver momentaneamente a alegria a uma cidade marcada pela violência.
Essa escolha, à primeira vista irreverente, guarda um raciocínio dramatúrgico preciso. Ao fazer da primeira parte uma experiência de prazer, presença e euforia, a peça amplia o abismo emocional da segunda metade, quando a tragédia enfim se impõe. É uma lógica herdada do próprio teatro grego, que compreendia a potência do contraste entre estados coletivos. O riso, a dança e a expansão do corpo não funcionam aqui como ornamento, mas como condição para que a queda tenha peso real.
Da festa à ruína: o espetáculo como experiência imersiva
Quando a primeira parte termina, o jogo muda. O público, até então convocado a viver a cena de dentro, é convidado a se sentar para acompanhar o desenrolar da tragédia. É nesse deslocamento que Édipo REC no Festival de Curitiba produz um de seus efeitos mais inteligentes: ele faz o espectador sentir na pele a passagem entre celebração e ruína, entre comunhão e colapso, entre o calor da festa e o frio da revelação.
O Magiluth chama essa operação de “uma tragédia à la Magiluth”, e a definição faz sentido. O grupo, ao longo de mais de duas décadas, construiu uma assinatura baseada na participação ativa do público, na quebra de distâncias e na recusa do teatro como lugar de simples contemplação. Em Édipo REC, isso se intensifica. O espectador não é levado a apenas assistir à queda do protagonista, mas a experimentar a arquitetura emocional que prepara essa queda.
Pasolini, cinema e o Édipo da era da superexposição
A releitura nasce também de um encontro decisivo com o cinema. Giordano Castro afirma que a obra de Pier Paolo Pasolini foi central para a concepção do espetáculo. O filme do diretor italiano, ao imaginar o que antecede a estrutura original da tragédia, abriu ao grupo uma possibilidade dramatúrgica mais ampla: pensar não só o Édipo de Sófocles, mas a trajetória inteira do personagem, incluindo os caminhos que o levaram à própria catástrofe.
Essa dimensão cinematográfica se combina à velha vocação do Magiluth para o audiovisual. Ao longo de sua trajetória, o grupo sempre trabalhou em fricção com câmeras, projeções e referências de linguagem filmica. Em Édipo REC no Festival de Curitiba, esse traço ganha novo sentido ao se cruzar com uma das questões centrais da peça: a crise da verdade em uma época dominada por imagens, recortes e produção permanente de conteúdo.
A tragédia de Édipo, nesse contexto, deixa de ser apenas a de um homem que descobre ter matado o pai e se deitado com a mãe. A peça desloca o foco para outra pergunta: quem sou eu por trás de tudo aquilo que projeto, registro e ofereço ao mundo? Numa era em que todos têm uma câmera à mão e performam a si mesmos sem cessar, o gesto de se conhecer torna-se ainda mais instável — e talvez ainda mais trágico.
Redes sociais, recorte e ficção do eu
Um dos dispositivos mais instigantes da montagem é o corifeu transformado em câmera. Essa escolha atualiza o papel clássico do teatro grego e o projeta sobre o presente digital. A câmera observa, enquadra, edita e reproduz, mas jamais dá conta da totalidade da experiência. É precisamente nessa insuficiência que a peça finca uma de suas críticas mais agudas.
O espetáculo insiste na ideia de que toda imagem é recorte. Toda narrativa de si, sobretudo nas redes, é parcial. O que aparece é uma versão possível, nunca a totalidade. Ao espelhar essa lógica em cena, o Magiluth confronta a crença contemporânea de que visibilidade equivale a verdade. Não equivale. E talvez seja justamente essa discrepância entre o que se mostra e o que se vive que aproxima tanto o Édipo clássico da subjetividade contemporânea.
Em vez de elaborar um discurso moralizante sobre a internet, a peça prefere trabalhar com a fricção entre presença e mediação. O teatro, nesse sentido, surge como contraponto decisivo: por mais que o vídeo organize olhares e recortes, a experiência do que acontece ali continua dependendo do corpo vivo, da simultaneidade e da presença compartilhada.
Magiluth: 22 anos entre radicalidade e permanência
A presença do Magiluth no Festival de Curitiba carrega também um valor histórico. A companhia pernambucana mantém relação antiga com o evento, onde se apresentou pela primeira vez em 2012 e, desde então, acumulou passagens pela Mostra Fringe e pela Mostra Oficial, hoje Mostra Lucia Camargo. Esse retorno com Édipo REC reforça a posição do grupo como uma das formações mais consistentes e inventivas do teatro brasileiro contemporâneo.
Fundado na Universidade Federal de Pernambuco, o Magiluth nasceu do encontro entre jovens artistas e amadureceu sem perder o impulso coletivo, experimental e profundamente ligado à cultura de Recife. Esse enraizamento aparece com nitidez no novo trabalho. A festa proposta pela peça, com grave alto e energia tecnobrega, não é uma abstração genérica de balada: ela tem a pulsação específica das festas recifenses, da cidade que moldou o grupo e continua a atravessar sua linguagem.
Essa relação com Recife é central para compreender o Magiluth. O grupo fala de sua aldeia para falar do mundo, em um gesto que ecoa tanto no teatro quanto no cinema pernambucano recente. Não por acaso, o elenco e o entorno da peça dialogam com esse mesmo ecossistema artístico. A atriz convidada Nash Laila, presença constante no cinema pernambucano, ajuda a reforçar esse encontro entre palco e tela.
Lubi, o “sétimo Magiluth”
A montagem marca ainda mais um reencontro entre a companhia e Luiz Fernando Marques, o Lubi, diretor que assina pela quarta vez uma criação do grupo. A relação entre ambos já extrapolou há tempos a lógica convencional entre companhia e encenador convidado. O próprio Giordano Castro brinca chamando Lubi de “sétimo Magiluth”, tamanha a integração do diretor ao modo de criação do coletivo.
Esse vínculo não se deve apenas à afinidade estética, mas a uma ética de trabalho baseada em horizontalidade e escuta. Lubi dirige a partir do material da sala de ensaio, do ator-criador, das tensões e proposições coletivas. Isso se ajusta perfeitamente à identidade do Magiluth, grupo que construiu sua trajetória justamente recusando hierarquias rígidas e apostando em processos compartilhados.
O resultado é uma encenação em que todos parecem profundamente implicados. Há risco, invenção e domínio. O espetáculo não transmite a sensação de algo imposto de fora, mas de uma criação orgânica, construída por artistas que conhecem a linguagem que praticam e a empurram adiante com ambição.
Um clássico sobre gente, não sobre museu
Há uma resposta particularmente feliz de Giordano Castro quando ele comenta por que clássicos ainda atraem público: porque falam de gente. Essa observação ajuda a entender a força de Édipo REC no Festival de Curitiba. O grupo não se aproxima de Sófocles para reverenciar a antiguidade como peça de museu, mas porque reconhece na tragédia conflitos que seguem vivos: a busca por identidade, a relação do indivíduo com o meio, o impacto das forças sociais sobre o destino pessoal.
É isso que sustenta a permanência do clássico. Não a aura. Não o prestígio automático. Mas a capacidade de dizer algo sobre nós. Em Édipo REC, essa atualização se dá sem timidez. O personagem vira DJ, a festa toma conta do palco, a câmera vira corifeu, o público sobe à cena. E, ainda assim, o núcleo trágico permanece intacto: a pergunta sobre quem se é quando a superfície desaba.
Serviço
Édipo REC – Mostra Lucia Camargo
34º Festival de Curitiba
Local: Ópera de Arame – Rua João Gava, 920 – Abranches
Data: 8 e 9 de abril de 2026
Horário: 20h30
Categoria: Teatro contemporâneo
Classificação: 18 anos
Duração: 120 minutos (+ 5 min de intervalo)
34º Festival de Curitiba
Data: de 30 de março a 12 de abril de 2026
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e bilheteria física no Shopping Mueller – Piso L3
Valores: de R$ 0 a R$ 85, mais taxas administrativas


