O Tim Maia no Festival de Curitiba provou, mais uma vez, por que a obra do cantor segue maior do que o tempo, maior do que o folclore e maior do que os próprios excessos. Em cartaz na Mostra Lucia Camargo, o musical Tim Maia – Vale Tudo transformou o Guairão em um grande baile de celebração, com plateia em pé, senhorinhas dançando e um menino de 9 anos cantando cada música como se estivesse diante de um velho ídolo íntimo.

Quem passou pela frente do teatro na noite anterior talvez até tenha exagerado ao dizer que o prédio tremeu. Mas quem estava lá dentro sabe que a imagem não parece tão absurda assim. A energia do público foi tão intensa que a sessão virou mais do que espetáculo: virou acontecimento. E boa parte dessa força veio justamente do encontro entre a memória de Tim Maia e a permanência viva de sua música em novas gerações.
Tim Maia no Festival de Curitiba emociona plateia no Guairão
O musical Tim Maia – Vale Tudo chegou ao Festival de Curitiba como uma homenagem potente a uma das maiores lendas da música brasileira. Em vez de apostar apenas na nostalgia, a montagem conseguiu mobilizar o público de forma imediata, física e emocional.
No Guairão, a resposta foi intensa. O texto enviado destaca senhorinhas dançando na plateia e a presença marcante de João, um menino de 9 anos que cantava com entusiasmo todas as músicas do espetáculo, mesmo sentado no distante primeiro balcão. A cena não passou despercebida nem pelo elenco.
Foi justamente esse detalhe que ajudou a dimensionar a força da obra de Tim Maia. Décadas após sua morte, suas canções ainda atravessam gerações e continuam encontrando ouvintes apaixonados.
Menino de 9 anos virou símbolo da noite
Entre todos os momentos da sessão, a imagem de João cantando do primeiro balcão acabou se tornando uma síntese perfeita do que o musical desperta. O menino chamou a atenção de Thór Junior, ator que interpreta Tim Maia no palco, a ponto de render uma brincadeira durante a apresentação.
“Ih, tem uma criança na plateia. Tomara que esteja acompanhada dos pais”, comentou o ator ao microfone, em referência bem-humorada ao teor mais libidinoso de algumas canções. Depois, na coletiva realizada na manhã seguinte, Thór voltou ao assunto e deixou clara a emoção com a cena. “É maravilhoso saber que depois de tanto tempo tem um menino que ama e canta Tim Maia.”
A observação tem peso. Afinal, Tim Maia morreu há 28 anos, e ainda assim segue sendo reconhecido e celebrado por uma criança que conhece o repertório de cor. Poucos artistas brasileiros mantêm essa capacidade de atravessar o tempo com tanta naturalidade.
Musical escolhe celebrar o artista acima do personagem folclórico
Com texto de Nelson Motta, Tim Maia – Vale Tudo foi pensado para funcionar como uma grande celebração. A montagem passa pelas histórias pessoais e familiares do cantor, mas evita se render totalmente à caricatura do “maluco-mor” da música brasileira.
Esse recorte aparece com clareza na fala de Thór Junior durante a coletiva. Para o ator, a música de Tim é maior do que suas falhas pessoais. “Ele pode ter cometido dez erros, mas acertou cem vezes. Foi o responsável por pavimentar o caminho para pessoas como eu, deixar tudo menos esburacado”, afirmou.
A frase resume bem a espinha dorsal do espetáculo. Em vez de explorar apenas os excessos, o musical prefere destacar a grandeza artística de Tim Maia e o tamanho de sua contribuição para a música brasileira.
Thór Junior carrega Tim Maia no corpo e na voz
Interpretar Tim Maia no palco não é tarefa pequena. Segundo o material da coletiva, 1,5 mil pessoas passaram pelas audições antes da escolha de Thór Junior para o papel. O número ajuda a medir o tamanho do desafio e da responsabilidade de encarnar um artista tão singular.
Carmelo Maia, filho do cantor e responsável por administrar seu espólio, resumiu essa dificuldade com uma frase precisa: “É muito fácil rotular meu pai como um doidão. Ele não era um doidão, era um cara altamente inteligente.” Para ele, não dá para representar Tim Maia de forma morna. “Ou você faz, ou não faz.”
Essa exigência aparece no que o musical entrega. O espetáculo não tenta domesticar Tim Maia. Também não transforma o cantor em santo. O que faz é mais interessante: devolve ao palco a dimensão humana, artística e contraditória de um gênio indomável.
Carmelo Maia emociona ao lembrar os últimos dias do pai
Um dos momentos mais fortes da coletiva foi o relato de Carmelo Maia sobre a última vez em que viu o pai, já internado no Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói, depois de passar mal durante um show. A lembrança trouxe à tona não apenas a fragilidade do fim, mas a permanência absoluta da personalidade de Tim Maia até seus últimos instantes.
Carmelo contou que passou cerca de quarenta minutos ao lado do pai, muito emocionado, enquanto os médicos insistiam para que ele permanecesse ali. No relato, a dor convive com um traço brutalmente fiel ao personagem real. Mesmo à beira da morte, Tim Maia ainda era Tim Maia. Segundo o filho, a única frase que entendeu com clareza foi quando o pai o mandou “tomar no cu”.
É o tipo de memória que nenhuma ficção melhoraria. Crua, absurda, humana e profundamente comovente.
Guairão recebeu uma homenagem à altura de Tim Maia
Ao ouvir Carmelo dizer que o Teatro Guaíra “retratou fidedignamente o que era um show” de seu pai, a impressão é de que o musical alcançou algo raro. Não apenas representou Tim Maia, mas recuperou parte da vibração coletiva que seus shows provocavam.
Esse talvez seja o maior mérito de Tim Maia – Vale Tudo no Festival de Curitiba. O espetáculo não se limita a contar uma biografia. Ele devolve ao público o impacto da presença de Tim, seu suingue, sua inteligência e sua capacidade de transformar plateia em coro.
No fim, o musical reafirma que Tim Maia permanece imenso não por ser um personagem pitoresco, mas porque sua obra continua pulsando com força real. E, diante de um Guairão em êxtase e de um menino de 9 anos cantando tudo, fica difícil encontrar prova melhor.
Serviço
Espetáculo: Tim Maia – Vale Tudo
Evento: Mostra Lucia Camargo – Festival de Curitiba
Última sessão: quarta-feira, às 20h30
Local: Guairão, em Curitiba
A Mostra Lucia Camargo no Festival de Curitiba é apresentada por Petrobras, Sanepar e Governo do Estado do Paraná, Prefeitura de Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba, Renault e Geely, com patrocínio de EBANX, Itaipu Binacional, Viaje Paraná e Copel, com realização do Ministério da Cultura e Governo Federal. Mais informações estão no site oficial do festival: https://www.festivaldecuritiba.com.br


